No fim da última semana escrevi um texto sobre a paralisação dos trabalhadores terceirizados no Restaurante Universitário e as condições de trabalho desumanas a que estão submetidos – e como a responsabilidade pela situação é da reitoria e do governo. Agora é importante discutir a resposta que os trabalhadores devem dar para reverter essa situação.
A nova direção do STU, o Vamos a Luta (VAL), foi eleita pela vontade dos trabalhadores de mudar o sindicato. O programa do VAL apontava claramente para a luta e para a superação do imobilismo da gestão Alerta. Os trabalhadores da Unicamp votaram no VAL porque querem uma direção de luta para defender seus direitos e conquistar avanços na carreira, no salário, nas condições de trabalho.
Se o VAL quer ser essa direção de luta, deve cumprir o programa que o elegeu. Só que, infelizmente, nessa primeira luta que o STU enfrenta com sua nova diretoria, a resposta do VAL é igual à da antiga gestão – e está conduzindo os trabalhadores à derrota.
STU: de cara nova, mas de alma velha (muito velha)
À primeira vista, as coisas pareciam bastante diferentes. O STU participou da luta dos terceirizados. Esteve presente, divulgou no boletim e se colocou do lado dos trabalhadores em luta e como seu representante nas negociações com a reitoria.
Mas não adianta parecer diferente, é preciso ter uma política diferente. E isso o “Vamos à Luta” não teve. Em vez de fortalecer a luta dos terceirizados, ele privilegiou o diálogo com a reitoria e desmobilizou os trabalhadores, que voltaram a trabalhar.
A postura do sindicato já estava clara no boletim de sexta-feira (23/09). Ele dizia: “o STU entende que a solução para esse problema deve se dar no constante diálogo e está aberto para a continuidade das conversas”. Estranho. Uma diretoria que se elegeu prometendo mobilizar os trabalhadores para a luta de rua e contra a terceirização diz para toda a categoria que a solução para terceirização é: o diálogo com a reitoria... Mas é exatamente a reitoria a responsável por essa situação!
Lutar contra a terceirização em vez de iludir os trabalhadores!
A terceirização existe para submeter os trabalhadores a uma situação de trabalho degradante, mantendo-os sem direitos e com baixos salários. O que está acontecendo no restaurante não é um acidente, mas é o objetivo da reitoria com o processo de terceirização. Não é o diálogo com a reitoria que vai resolver o problema dos trabalhadores, mas a luta contra esse projeto! O VAL se elegeu dizendo isso, mas na prática está fazendo o contrário.
E o pior é que o boletim do STU de segunda-feira (26/09) usa a mentira para esconder a política das lideranças do VAL. Ele diz que “Com muito esforço do STU, a prefeitura do campus cedeu e agendou uma reunião para hoje, às 8h30”. Mas a realidade é outra. Na quinta-feira, dia da paralisação, houve uma reunião para negociar as pautas dos terceirizados e os representantes da reitoria foram claros em sua ameaça: só vai acontecer negociação se os trabalhadores voltarem ao trabalho.
Essa é a ameaça típica contra as greves e mobilizações. É uma chantagem com um único objetivo: desmobilizar a luta e desorganizar os trabalhadores. E o STU/VAL caiu na chantagem. Aceitou a volta ao trabalho para sentar e negociar com os representantes da reitoria. Isso sem conquistar nenhum compromisso de que as principais reivindicações seriam atendidas! Ou seja, quem cedeu foi o STU, e não a reitoria.
E, dessa forma, os trabalhadores terceirizados foram desarmados, porque o que chamou a atenção da Universidade para os seus problemas foi a organização e a paralisação desses trabalhadores. Voltando ao trabalho eles perdem a arma que tinham para pressionar a reitoria a atender suas reivindicações.
Luta contra a reitoria ou diálogo com ela?
Esse tipo de prática é característica conhecida do sindicalismo de negociação, do sindicalismo de escritório. O VAL não se elegeu para isso. Os trabalhadores não votaram nele para que o STU continuasse igual era na gestão do Alerta.
Em 2006, em um caso exemplar, os trabalhadores da área da saúde fizeram uma grande greve em defesa da jornada de 30 horas. O STU/Alerta fez coisa semelhante ao que o STU/VAL está fazendo: desmontou a greve para poder negociar com a reitoria. O resultado: os trabalhadores perderam sua arma, as negociações não avançaram e os trabalhadores da área da saúde foram derrotados.
Repetindo essa história, a postura do STU/VAL vai levar a luta a um beco sem saída. É possível que a reitoria aceite algumas das reivindicações. É sua obrigação manter a universidade funcionando e, para isso, manter os equipamentos em ordem (e, assim, a máquina de lavar bandejas). É possível que os materiais de segurança sejam fornecidos, porque não interessa à Universidade essa propaganda negativa. Mas, tão logo a comunidade universitária deixe de olhar para a situação desses trabalhadores terceirizados, a situação vai voltar ao que era antes.
Ou seja, a política de negociação do VAL além de não fazer avançar a luta pelas principais reivindicações dos trabalhadores terceirizados, não vai garantir avanços permanentes nas condições de trabalho dos terceirizados.
É preciso mudar a lógica e ir para a luta!
Não desconhecemos as dificuldades da luta dos terceirizados. Mas entendemos que a única solução para a questão é a luta intransigente contra a terceirização e a incorporação dos trabalhadores terceirizados aos quadros da Universidade.
E para alcançar isso é necessário tornar cada luta isolada dos trabalhadores numa luta contra o projeto da reitoria e do governo. A situação que apareceu no restaurante acontece em toda a Universidade. E não é o diálogo com os responsáveis por ela (e que a conhecem) o que vai resolver. Somente a mobilização dos trabalhadores, concursados ou não, em defesa das condições de trabalho para os terceirizados e contra a terceirização pode solucionar o problema.
Ainda é tempo para que VAL mude sua postura. Mas precisa mudar agora! Se o STU/VAL continuar seguindo a cartilha de suas lideranças vai acabar da mesma forma como terminou a gestão do Alerta: afastado dos trabalhadores e freiando nossa luta. A política do sindicato não pode continuar como está: desmobilizar e desorganizar a luta dos terceirizados é um crime do STU e nos levará à derrota.
Guilherme, DGA/Transportes, do coletivo Levante.
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Fiz uma pequena correção de data: onde se lia "na sexta-feira houve uma reunião", alterei para "Na quinta-feira, dia da paralisação, "
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Fiz uma pequena correção de data: onde se lia "na sexta-feira houve uma reunião", alterei para "Na quinta-feira, dia da paralisação, "